terça-feira, 19 de março de 2013

Dois anos sem o Cine Belas Artes: sim!, há o que comemorar

Há dois anos, na noite de uma quinta-feira de março, com muita tristeza, assistimos à última sessão do Cine Belas Artes. Quando as luzes do projetor se apagaram e as da sala se acenderam pela última vez, se fez um silêncio profundo. À saída, em vez de corriqueiros comentários sobre o filme que acabávamos de ver, pairou um clima de velório. “Acabou!”, muitos disseram.


Manifestantes realizam ato em março de 2012 em frente ao Cine Belas Artes, tradicional reduto do cinema independente de São Paulo, fechado há um ano por falta de financiamento e apoio do governo. Foto: Fora do Eixo/Flickr
Manifestantes realizam ato em março de 2012 em frente ao Cine Belas Artes, tradicional reduto do cinema independente de São Paulo, fechado há um ano por falta de financiamento e apoio do governo. Foto: Fora do Eixo/Flickr
Apesar da luta que, nos meses anteriores, havia mobilizado milhares de pessoas contra o fechamento do Belas Artes, parecia se repetir a sina que tem marcado a cidade nas últimas décadas: o fechamento dos cinemas de rua, nesse caso, o mais importante deles. Parecia irreversível o desaparecimento de um lugar que já havia marcado a vida cotidiana de São Paulo, uma sala de arte que se manteve independente dos circuitos comerciais e que havia se transformado em uma referência urbana e cultural da cidade.
Seduzido por um aluguel milionário que, segundo se dizia, era oferecido por uma rede comercial, o proprietário do prédio não aceitou nem uma boa proposta de locação que tornasse possível manter o cinema aberto. “Não tem jeito!”, recomendava o senso comum. “É a força da grana que destrói coisas belas”. Paciência, diziam os céticos: a desenfreada valorização imobiliária chegou até aqui.
Por sorte, não existem apenas céticos; milagrosamente, no meio dessa selva de concreto, aparecem apaixonados que não se conformam em ver desaparecerem as últimas referências que conferem identidade aos lugares significativos da cidade. Reunidos no Movimento Pelo Cine Belas Artes (MBA), jovens e velhos frequentadores do cinema não cederam à lógica dominante e ergueram trincheiras contra o que parecia irreversível.
Esse grupo de militantes e ativistas urbanos e culturais, respaldados por mais de cem mil cidadãos que apoiam essa causa na internet e milhares que assinaram presencialmente o manifesto, buscou os conselhos de defesa do patrimônio cultural, para lhes mostrar a necessidade de preservar, do processo imobiliário, os espaços públicos de cultura que se tornaram referenciais para a cidade.
Com tenacidade e persistência, o MBA manteve a chama da esperança acesa por dois anos. O cinema está ali, fechado, triste, escuro, fazendo falta sempre que queremos ver um bom filme, mas alguma luz parece surgir no final do túnel. O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) determinou o tombamento da fachada e registro de memória do cinema. Nenhuma obra ou alteração física pode ser feita sem a autorização do órgão. Espera-se que, com a nova administração da cidade, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio), que há dois anos abriu processo de tombamento do cinema, possa retomar o assunto, que recebeu parecer positivo da sua área técnica. O proprietário contabiliza os milhões que deixou de receber pela excessiva ganância.
Para além de sua importância como cinema, a reabertura do Cine Belas Artes é fundamental para a reabilitação da vida cultural e urbana da esquina das avenidas Consolação e Paulista, que caiu em decadência, sobretudo durante a noite, nos últimos anos. Em breve estará de volta o Bar Riviera, tradicional ponto de encontro que faz parte desse conjunto cultural. O que será dele sem o movimento efervescente gerado por um cinema como o antigo Belas Artes? Mais um restaurante com “valet” na porta? É disso que São Paulo precisa?
Não, a região necessita de um impulso capaz de potencializar sua ocupação. Com medidas simples de segurança e manutenção, a passagem subterrânea que liga o Belas Artes ao Riviera poderá ser rapidamente revitalizada, com a valorização dos sebos ali instalados. Um bom projeto urbano poderá conectar todos esses espaços com a Praça do Ciclista e outros espaços públicos do entorno.
Os cinemas de rua exercem um papel fundamental no repovoamento do espaço público, elemento estratégico da construção da cidade que queremos. Por essa razão, propus uma lei, aprovada em 2004, que garante incentivos fiscais aos cinemas de rua, que precisa ser estendida a outros equipamentos culturais de rua, em especial os teatros.
Outras medidas de proteção aos espaços culturais públicos não estatais, situados nas ruas, precisam ser instituídos, alargando o conceito das Zonas Especiais de Preservação Cultural (Zepec), dispositivo que garante a preservação de bens imóveis representativos de valor cultural e comunitário, criado pelo Plano Diretor Estratégico (PDE), que relatei na Câmara Municipal, em 2002. Sua revisão, que ocorrerá neste ano, é a grande oportunidade que temos para aprofundar essa proteção e evitar que outros espaços culturais significativos venham a desaparecer.
Mesmo fechado (provisoriamente, espero), o Belas Artes resistiu por dois anos porque parcela relevante da comunidade paulistana se mobilizou e o defendeu como parte da identidade da cidade. Sim, podemos comemorar: o Movimento Belas Artes vem mostrando que a cidadania cultural pode enfrentar “a força da grana”.
Nabil Bonduki, professor da FAU-USP, livre-docente em planejamento urbano, é vereador em São Paulo. Foi o relator da Lei do Plano Diretor Estratégico da cidade
Fonte: Carta Capital

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Juca Ferreira, Secretário Municipal de Culturas de São Paulo, sobre se a questão do Cine Belas Artes entraria na sua lista de prioridades

"Já entrou. É do nosso interesse. Não sei se será necessária a desapropriação, mas nos adiantamos e o Iphan mandou fazer, pela Caixa Econômica Federal, a avaliação do imóvel. Estamos trabalhando juntos. Estou atendendo uma demanda da cidade, este é um patrimônio afetivo da cidade. Há outros cinemas de rua, alguns estão em processo de tombamento, outros já foram tombados. Eu acho o seguinte: existe uma leitura menos generosa, com a qual eu não concordo, de que precisamos investir na periferia e esquecer o centro. Precisamos levar os serviços públicos e incorporar plenamente a periferia. Mas o centro da cidade é um local importante em qualquer cidade do mundo. As cidades brasileiras deixaram degradar o seu centro".

Via: Estadão 02/02/2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

'Até McDonald's fechou', diz comerciante da rua da Consolação (SP)

"O Riviera fechou, o Baguete fechou. Até um McDonald's fechou", lembra a comerciante Sueli Martins Moraes, 56, contando nos dedos tudo o que não deu certo na Consolação.


Sueli é dona do empreendimento que resistiu à decadência da região, a pizzaria Micheluccio, há 60 anos ali.

"Antigamente podia estacionar na frente. Não tinha o corredor de ônibus, ficava mais fácil chegar de carro aqui. Tudo foi mudando e ninguém aguentou", disse ela, dona da pizzaria desde 1996.

Para manter firme o negócio, durante o dia serve pastéis bem na entrada. "O aluguel está muito caro. Tem gente que paga R$ 20 mil."

Quem também ajuda a dar vida à esquina é o livreiro Silas Rocha, 65, que trabalha no na passagem subterrânea de pedestres na Consolação.

"Virou uma passagem literária e temos que cuidar. Já a esquina realmente perdeu o encanto. Torcemos para que novos negócios mudem isso", disse Rocha.

O empresário Facundo Guerra diz que os meios de transporte na região vão facilitar a chegada da clientela. "Para mim, o marco da cidade é a Paulista com a Consolação, uma localização excelente. Para quem virá de carro, há estacionamentos na avenida Angélica. E tem o metrô e ponto de táxi ao lado."

Para atrair o público, ele quer manter o que chama de um dos alicerces do Riviera. "O preço da comida tem de ser acessível, como era no passado, por isso o Riviera atraía estudantes", afirmou.

Ele diz estar com "a faca e o queijo" na mão para que o negócio deslanche.

"Não queremos errar com pratos e drinques caros, com programação ruim. Não queremos errar fazendo algo para a elite", afirma.

Análise: Espaço do bar Riviera ainda guarda a atmosfera de outros tempos

ROBERTO LOEB

A provável reabertura do bar Riviera, na esquina da rua da Consolação com a avenida Paulista, poderá ser o início da recuperação de um canto da cidade que ainda emite sinais de vitalidade.

Seu espaço fica na base de um belo exemplar da arquitetura moderna, projetado pelo escritório MMM Roberto --os célebres irmãos cariocas que projetaram e construíram a famosa sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no Rio de Janeiro.

Com elegantes e ondulantes paredes de blocos de vidro e seu jirau, o lugar ainda guarda a atmosfera do tempo em que ir ao Cine Belas Artes e esticar a noite no Riviera fazia parte do hábito de muitos paulistanos.

É um bom começo.

Mas isso deveria vir acompanhado da reabertura dos cinemas, da modernização da passagem subterrânea sob a Consolação, de um projeto de iluminação urbana, com a participação de empresários locais do comércio de luminárias, e o alargamento das calçadas, sequestradas por ônibus e automóveis.

Se fosse concedido um estímulo fiscal para a instalação de outros bares e restaurantes, livrarias e outros pequenos comércios, aí, sim, seria a glória. Significaria a reversão do declínio desse pedaço da cidade que ainda pulsa, mas no compasso silencioso da espera por dias melhores.

São Paulo merece isso.
ROBERTO LOEB é arquiteto e coordenou a reforma do Cine Belas Artes, em 2004.

Após decadência, esquina da avenida Paulista espera 'filho pródigo'

GIBA BERGAMIN JR.


Alguma coisa acontece no coração de paulistanos nostálgicos, e não é na esquina da Ipiranga com a São João, imortalizada na voz de Caetano.

A reabertura do antigo bar Riviera, no meio do ano, e os planos da prefeitura de transformar o extinto Cine Belas Artes num centro cultural colocaram recentemente foco em outro cruzamento: da avenida Paulista com a rua da Consolação, que vem atravessando um período de decadência desde os anos 1990.

Aquele pedaço nobre da cidade viu, ao longo do tempo, seus principais pontos comerciais se fecharem --um dos mais célebres, o Riviera, fundado em 1950, baixou as portas em 2006.

Agora, a expectativa é de um renascimento. As obras no futuro bar --antigo reduto de intelectuais, artistas e todos os que eram contrários o regime militar durante a ditadura --já começaram.

Pelo espaço passaram cantores como Chico Buarque e Elis Regina, cineastas como José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e cartunistas do naipe de Chico, Paulo Caruso e Angeli --que encontrou, nas mesas do bar, inspiração para criar a personagem Rê Bordosa.

As características da antiga casa serão mantidas no novo Riviera. Um grande balcão vermelho será uma espécie de ponto de encontro. No segundo piso, haverá um espaço para shows de jazz.

Bar Riviera

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Karime Xavier/Folhapress
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Na foto o empresário Facundo Guerra, um dos responsáveis pela reabertura do bar Riviera
MEMÓRIA AFETIVA

O empreendimento é do empresário Facundo Guerra e do chef Alex Atala. Ficará no mesmo lugar onde funcionou em seus 56 anos de existência --ocupará parte do térreo e do mezanino do edifício modernista Anchieta, projetado pelos irmãos cariocas do escritório MMM Roberto.

"Não tenho pretensão de salvar marcos da cidade. Mas acho que [melhorar as condições do entorno] é um efeito colateral positivo do trabalho, como aconteceu com outras casas, como o Vegas, na Augusta, e o Cine Joia, [no centro]", disse Guerra.

O empresário afirma ter relação afetiva com o Riviera, o qual frequentou em seus últimos anos de funcionamento. "Foi um lugar superimportante para o meu pai, que militou. Minha família inteira é de comunistas. Para contar essa história de novo fica muito mais fácil", afirma.

Para o vereador Nabil Bonduki (PT), urbanista e professor da USP, porém, o processo de revitalização depende de um projeto para o Belas Artes.

"O grande o motor daquela região é o Belas Artes. Seu fechamento levou a um afundamento definitivo da região. Não adianta só ter um restaurante, com valet na porta. Precisa mais que isso."

sábado, 19 de janeiro de 2013

Belas Artes: Começa diálogo que pode reabrir cinema


Reunião com prefeitura de São Paulo anima grupos que lutam para reativar salas. Surge ideia de convertê-las em polo de um corredor cultural

Por Bruna Bernacchio

Reacesa com a posse do novo prefeito de São Paulo a luta para resgatar um importante patrimônio cultural da cidade ganhou ainda mais fôlego ontem (17/1). Representantes do Movimento Belas Artes (MBA) e outros grupos da sociedade civil reuniram-se pela primeira vez com o novo secretário da Cultura, Juca Ferreira. O encontro acabou com a atitude de indiferença adotada nos dois últimos anos pelo poder público. Juca assegurou que a prefeitura tem interesse na volta do cinema, ameaçado de se converter em loja de departamentos. Embora haja obstáculos importantes para o resgate, abriu-se um canal de diálogo para buscar soluções. Animado, o movimento já pensa num projeto mais amplo, que transformaria o Belas Artes num dos marcos de um novo corredor cultural Paulista-Consolação, no centro da metrópole. Se impulsionado pela prefeitura, contribuiria para enfrentar a tendência à mercantilização dos espaços públicos.
“Juca ouviu muito”, contou, à saída da reunião, Moura Reis, jornalista aposentado e crítico de cinema. Estava interessado em conhecer a história e as ideias do movimento. “A cidade está carente de diálogo”, disse o secretario. Para os defensores do Belas Artes, já é um passo muito significativo. Desde o início do movimento, “a atitude da prefeitura e do Estado foi renitente e omissa quanto a uma solução definitiva para o caso na maior parte do tempo”. Dessa vez, Juca registrou, ele mesmo, as propostas e comprometeu-se a estudar as possíveis formas de recuperar o espaço, prevendo uma nova reunião para depois do carnaval. Além dele, estavam presentes o vereador recém-eleito Nabil Bonduki, e Vera, assessora de Eliseu Gabriel, presidente da CPI do Belas Artes e atual Secretario do Trabalho.
“A CPI ajudou para ver as soluções democráticas”, analisa Moura. O Cine Belas Artes foi por décadas um tradicional cinema de rua e importante território de formação cultural. Teve de ser fechado no início de 2011 por um brusco aumento no aluguel e falta de financiamento. Flávio Maluf, o dono do imóvel, nunca se importou com a perda do patrimônio: desde o início demonstra seu desejo de vender o prédio para quem puder pagar mais. A negociação com ele ainda não foi iniciada. Além disso, se o imóvel em que está o cinema for declarado de utilidade pública, como propõe o relatório da CPI, é necessária uma parceira com a iniciativa privada, para sustentar as salas. O projeto do corredor cultural Paulista-Consolação por enquanto continua no sonho — mas foi a ideia recebida com mais entusiasmo pelo secretário.
A ideia surgiu quando se buscava “pensar uma solução de forma mais integrada, sincronizar políticas para cultura, educação e turismo”, conta o jornalista Beto Gonçalves, um dos principais articuladores do movimento. O corredor abrangeria uma área que começa na Avenida Vergueiro, com seu popular centro cultural, atravessa a Paulista e a Consolação e chega até a recém-reformada e ocupada Praça Roosevelt. Seria composto por vários polos. Em um deles, o da esquina Paulista-Consolação, diversos pontos que se inter-relacionam: o Cine Belas Artes, a Praça do Ciclista, a passagem subterrânea e seu sebo, o futuro Museu do Instituto Moreira Salles, e outro clássico a ser reaberto, o Bar Riviera — projeto do chef Alex Atala e o empresário Facundo Guerra. O Belas Artes, utilizado assim em seu auge, volta a ser a âncora da natural simbiose desses polos. A Praça do Ciclista como representação de uma nova consciência para uma cidade mais humana.
Seria uma medida de contratendência à especulação imobiliária. Em uma área almejada pelo mercado comercial e financeiro, a prefeitura tem a oportunidade de estimular — ainda mais — o movimento contrário, já em curso, de convivência nos espaços públicos. Em um momento de desindustrialização da cidade, ganha importância outra movimentação, também com potencial econômico: a da criatividade. São Paulo, como importante megalópole mundial, aproveitaria seu grande potencial para tornar-se um centro de cultura de rua, de diversidade, tolerância, convivência.